Lugar Cativo

"A melhor defesa é o ataque" Hugo Meisl

Desconto de Tempo #5


Depois de Co Adriaanse também Carlos Carvalhal apontou críticas ao estado do futebol português, nomeadamente à falta de público nas bancadas. O treinador do Belenenses considera o preço avultado dos bilhetes a principal causa do problema; concordo que seja a principal mas não é, infelizmente, a única. Este tema está claramente em voga, não só porque não se trata de uma enfermidade exclusivamente nacional, mas porque a longo prazo ameaça seriamente o futebol. Mas, enquanto em outras paragens se movem esforços para discutir o problema, remediando e prevenindo, por cá pouco se diz e nada se faz. Carvalhal pede que seja dado voz aos treinadores, eu peço – de certeza apoiado por muitos – que seja dada voz aos adeptos. Será pedir muito que a Liga se dê ao trabalho de realizar uma pesquisa a nível nacional, auscultando adeptos e profissionais do mundo do futebol, no intuito de procurar soluções para o problema?

Mas como não pretendo falar das falhas dos outros caindo nas mesmas, fica aqui o meu contributo para a discussão focando-me em 4 das principais causas do estado actual do futebol luso:


1) Preço dos bilhetes – não há como contornar esta realidade de tão óbvia que ela é: ir a um jogo de futebol é demasiado caro para o bolso português. Não adianta culpar a crise, porque essa é uma questão de todo o país e não apenas do futebol nacional; mas mesmo sem crise, o problema persiste e está relacionado com a falta de estratégia comercial tão tipicamente portuguesa. O futebol neste aspecto assemelha-se um pouco ao comércio tradicional: quer-se ter o lucro todo de uma só vez. Parece não haver forma de os clubes portugueses entenderem que se baixarem o preço dos bilhetes, terão mais pessoas a assistir aos jogos, acabando por ter a mesma receita ou podendo mesmo aumentá-la. Além do mais, esta situação pode levar à fidelização dos adeptos que se sentem mais "à vontade" para ir aos jogos já que não pesa tanto na carteira. A reintroduzição dos bilhetes para criança é fundamental, já que a sua inexistência afasta as famílias dos estádios o que não só representa a perda imediata de x bilhetes, mas condiciona dividendos futuros já que se perde uma quota importante do mercado que importa "agarrar" desde cedo. Há que recuperar o hábito de levar os "miúdos à bola". Nesta questão, para além dos clubes, é culpada a Liga que não é capaz de regular os preços de uma forma justa e honesta para com os adeptos.


2) Infra-estruturas – com a realização do Euro'04, houve a oportunidade de renovar uma pequena parte dos recintos desportivos do país, mas no geral o panorama continua deprimente. É difícil convencer as pessoas a sair de casa quando ao conforto do sofá se contrapõe bancadas de cimento a céu aberto. Para além da falta de qualidade, a maioria dos estádios nacionais encontram-se desfasados das realidades dos clubes que servem, daí o aspecto abandonado da maioria. Um bom exemplo é o Estádio Municipal de Barcelos, um mau é, como não poderia deixar de ser, o Estádio Dr. Magalhães Pessoa em Leiria. Ainda no campo das infra-estruturas, é inconcebível que na principal competição desportiva de um país se permitam relvados em condições deploráveis e que pouca diferença apresentam com um qualquer batatal por esse Portugal fora. Mais uma vez, a falta de regulamentação por parte da Liga leva a que o problema se arrasta ano após ano.

3) Qualidade do futebol – embora se tenta tapar o Sol com uma peneira, a verdade é que o futebol português, ou se preferirem o futebol praticado em Portugal, é fraco e isso afasta os adeptos dos estádios. E por mais que se tente fazer parecer, os resultados das principais equipas portuguesas nas competições europeias e o desempenho da selecção portuguesa no Euro, não têm nada a ver com o assunto; são realidades diferentes. Dizer que o FC Porto que venceu a Champions League representa um U. Leiria - Marítimo em que estão 400 pessoas a ver um 0-0 pouco menos do que aborrecido, é não só mentira como é estar a gozar com as pessoas. A maioria das equipas continua a praticar um futebol de qualidade medíocre alicerçada na filosofia do "pontinho"; Koeman diz que defender bem também faz parte do espectáculo, algo com que concordo, mas defender apenas, seja bem ou mal, não promove em nada o espectáculo.

4) Mentalidade - já há muito se disse e é uma verdade à qual não se escapa, os portugueses não gostam de futebol, ou melhor gostam mas só quando ganham. Tem a sua lógica, a vitória da nossa equipa eleva o nosso prestígio social, e todos procuramos que a nossa imagem social seja elevada; se ao associarmo-nos com uma equipa corremos o risco de ficar a perder, não é necessário dar-nos ao trabalho de a apoiar. Aqui não existe a cultura de ligação que há em Inglaterra entre clubes e adeptos, e é pena que assim seja. Este é provavelmente o único problema do futebol português cuja resolução não depende das estruturas federativas.

« Home | Next »
| Next »
| Next »
| Next »
| Next »
| Next »
| Next »
| Next »
| Next »
| Next »

1 Comentários:

O preço dos bilhetes poderá não ser o maior problema no futebol... mas que complica... complica!

É por isso que proponho uma GREVE AO FUTEBOL... na 7.ª jornada!

Por Blogger NP, at 10:06 da tarde  

Comentar