Lugar Cativo

"A melhor defesa é o ataque" Hugo Meisl

Superliga: fechado para balanço (II)

segunda-feira, maio 23, 2005
A edição que finda foi sem dúvida a mais emotiva e competitiva dos últimos anos, com a indecisão a manter-se até final e o número de equipas que chegaram a alimentar o sonho do título maior do que o normal. Sendo esta emotividade e competitividade fenómenos positivos para o nosso campeonato, não posso no entanto concordar com aqueles que defendem estar o nosso futebol "nivelado por cima", tendo como base a presença em 7 finais internacionais nos últimos dois anos (2 na Taça Uefa, 1 na Liga dos Campeões, 2 na Supertaça Europeia, 1 na Taça Intercontinental, e 1 no Europeu), a que se junta pelo menos mais uma presença numa meia-final de uma competição europeia. Não concordo porque não podemos tomar o todo pela parte, e se esses resultados foram extraordinários, a falta de competitividade dos nossos clubes do meio da tabela ante adversários de nível semelhante de outras partes da Europa é confrangedora.

Dizer que o campeonato esteve "nivelado por baixo" é também retirar mérito a quem o teve, no caso os clubes médios que melhoraram bastante aproveitando a quebra dos "grandes". No entanto, acho que esta é uma expressão que deve ser utilizada quando, e apenas nessa situação, nos referimos à qualidade média do futebol que se pratica na Superliga, que de super nada tem. O futebolzinho pobre sem ambição continua a pautar a moda, sendo a cultura do pontinho aquela que prevalece; felizmente, é preciso que se ressalve, o número de treinadores que perderam a subserviência aos "grandes" é cada vez maior, advindo daí a maior competitividade. No entanto, sem ovos não se fazem omeletes, e a verdade é que grande parte dos jogadores do nosso campeonato não têm qualidade mínima para jogar ao mais alto nível, mas isso é um problema mais profundo do que a escolha dos mesmos por parte dos treinadores dos clubes; é um problema de mentalidade, mas sobretudo de negócios de empresários e dirigentes em busca de comissões.

Acho que no geral tivemos um futebol que em nada difere das restantes áreas do país...

Superliga: fechado para balanço

E findou mais uma edição da Superliga, da qual saiu coroado o SL Benfica como campeão nacional, 11 anos depois do último triunfo das águias no escalão maior do futebol nacional. Estão de parabéns os seus adeptos pelo apoio que deram ao clube; não estendo os parabéns à equipa de futebol ou ao clube pois penso não serem disso merecedores: a equipa porque não mostrou futebol suficiente para se sagrar campeã, e o clube porque os "empurrões" para a frente de que beneficiaram tornam este título injusto.

Não se depreenda daqui que acho que Porto ou Sporting merecessem o título, au contraire; quem não é capaz de fazer o mínimo para ser campeão, não merece sê-lo. O Sporting pagou pela postura de contenção que o seu treinador quis impôr na Luz; servindo-lhe o empate, não procurou a vitória saindo do relvado com uma derrota que o arrumou da luta pelo título, naquilo que foi o início de uma semana de descalabros culminada com a derrota por 4-2 em casa ante o Nacional, já depois de ter perdido a final da Taça UEFA para o CSKA de Moscovo.

O FC Porto voltou a não vencer em casa, embora os seus jogadores soubessem ser imperial fazê-lo se ainda acalentavam esperanças em vencer o título. O ideal teria sido o Benfica perder no Bessa, para a tragédia portista ser ainda mais dolorosa, e justa diga-se de passagem.

E parecendo um contra-senso, parece que afinal o Benfica foi quem mais mereceu ser campeão; um campeão fraco, a jogar mal, sem carácter para se impôr quando necessário, mas um campeão unido e esforçado. Não fossem os excessivos erros de arbitragem a seu favor, a discussão quanto à justiça do triunfo encarnado estaria encerrada; assim sendo...

Um pouco de psicologia...

terça-feira, maio 17, 2005
Existe uma teoria em psicologia social que acredito explicar com certa clareza as constantes críticas à arbitragem em Portugal, sobretudo quando estas partem dos 3 grandes. A teoria em questão chama-se Privação Relativa, e foi desenvolvida em meados de 60 embora os seus primeiros esboços e tenham surgido em 1948 num artigo de Stouffer et all. a respeito do grau de satisfação de militares norte-americanos durante a 2ª Guerra Mundial.

De uma forma sucinta, o sentimento de Privação Relativa surge quando, independentemente das condições objectivas, alguém (personificando quer uma pessoa, quer um grupo) experiencia um sentimento de descontentamento, de injustiça ou frustração ao ver-se privado (sic) de determinadas condições a que se julga direito de possuir, quando comparado com outrem que as possui de forma injusta (isto na perspectiva de quem se sente privado).

Traduzindo isto para futebolês: um clube (dos grandes) queixa-se das arbitragens, não porque objectivamente seja prejudicado pelas mesmas, mas porque se sente injustiçado face ao que entende serem benefícios aos seus adversários; benefícios esses que acredita serem-lhe igualmente devidos.

Não quero com isto dizer que uma vez por outra os protestos não tenham suporte objectivo; mas a realidade é que nas contas finais os 3 grandes têm muito pouco que se queixar relativamente às arbitragens, sobretudo comparativamente com as restantes equipas. As diferenças verificadas entre os 3, em termos de benefícios da arbitragem, são residuais e numa época "premeiam" uns e noutra outros, pelo que as queixas acabam por ter pouco sentido. Claro que esta situação não pode ser demarcada das estratégias de pressão sobre adversários e árbitros que decorrem dos constantes "choradinhos" na comunicação social, mas isso são contas de outro rosário...

Harpastum

domingo, maio 15, 2005

©footballnetwork.org
Posted by Hello

No processo de conquista da Grécia por parte do Império Romano, muitas foram as influências helénicas transpostas ou adaptadas para o dia-a-dia romano. Entre elas encontram-se os jogos recreativos em que uma bola assumia um papel central. Do jogo grego Epskyros, desenvolveu-se um outro a que os romanos denominaram Harpastum, o jogo da bola pequena.

O Harpastum contam mais similitudes com o rugby moderno do que com o futebol que hoje em dia se desenvolve por campos de todo o globo; todavia, a existência de regras rígidas e posições fixas para certos jogadores demonstram haver uma certa ligação entre estes dois desportos tão disperso cultural e temporalmente. Mais do que um jogo recreativo, o Harpastum era um exercício militar que não só permitia manter a forma dos legionários, como estimular a capacidade de decisão e organização de exércitos num campo de batalhar por parte dos oficiais da Legião Romana.

O jogo decorria num recinto rectangular dividido em duas metades por uma linha central, sendo o objectivo de uma equipa fazer a bola ultrapassar a linha final, locus stantium, adversária de forma a pontuar; o uso dos pés era escasso, sendo a bola passada pelos intervenientes com as mãos.

Cada equipa era composta por 5 a 12 elementos, dos quais os mais lentos estavam encarregues de proteger a locus statium da sua equipa e os mais ágeis de transpor a adversário; a transposição da defesa para o ataque era feita por jogadores que actuavam sobre a linha central designados por medicurrens. O tackle era apenas permitido sobre o jogador que detinha a bola, pelo que rapidamente foram sendo desenvolvidas estratégias de passe entre os jogadores; igualmente importantes eram as capacidades de iludir o adversário através de movimentos corporais de forma a ganhar vantagem sobre estes.

A expansão do jogo, que se manteve num hiato temporal de cerca de 700-800 anos, foi profícua dada a vastidão do Império; no entanto, não é certo que tenha exercido qualquer influência sobre as formas do jogo que viriam a ser desenvolvidas na Grã-Bretanha séculos mais tarde.

Cultura Táctica

sábado, maio 14, 2005
A falta de cultura táctica é, na minha opinião, um dos maiores problemas dos jogadores portugueses, sobretudo nos mais jovens, facto que dificulta a afirmação destes no futebol profissional ao mais alto nível. São raros os jogadores portugueses que transitam das camadas jovens com capacidades de leitura táctica de um nível aceitável para singrar ao mais alto nível; há claramente notáveis excepções onde podemos incluir João Moutinho ou Manuel Fernandes, falando dos mais recentes. No entanto, muitos são os que falham na transição para os séniores devido a não estarem capacitados para perceber as condicionantes do jogo táctico, muito mais trabalhadas e complexos do que o que estavam habituados.

Acredito que uma maior aposta nesta vertente do jogo nas camadas jovens permitiria dotar os jogadores jovens de uma preparação mais adequada para lidar com as exigências do futebol moderno. Sendo a vertente táctica uma das componentes fulcrais do sucesso de uma equipa, quanto mais preparados estiverem os seus atletas para corresponder ao que lhes é pedido, melhor será o seu rendimento.

Se a principal preocupação das camadas jovens dos clubes nacionais fosse formar atletas de alto nível, ao invés de conquistar troféus, menor seria o número de promessas eternamente adiadas que pululam no futebol português, maior seria a competetividade do futebol português, em maior número seriam as opções para a selecção nacional...

Golos fora

sábado, maio 07, 2005
O apuramento do Sporting para a final da Taça UEFA, ainda para mais realizando-se esta no Alvalade XXI, é um facto de grande prestígio para o clube que tem a hipótese de conquistar a sua segunda competição internacional, e para o futebol português que pode conquistar a 3ª taça europeia em 3 anos.

Deixando de parte méritos futebolísticos, a forma como o Sporting alcançou o apuramento é injusta para com o AZ Alkmaar pelo facto de o golo leonino apontado no prolongamento contar para o critério de desempate dos golos marcados fora. Não é a primeira vez que tal acontece, mas parece ser já tempo de a UEFA acabar com esta situação que penaliza os clubes que jogam fora a segunda mão, já que os seus adversários dispões de mais tempo de jogo para marcar um golo que pode fazer toda a diferença no cômputo geral da eliminatória.

Arrumadas as aberrações do "golo de ouro" e "golo de prata", está na altura de deixar de contar os golos apontados no prolongamento para o números de golos marcados fora de casa como critério de desempate.

Episkyros

quinta-feira, maio 05, 2005

Alto Relevo de um grego a praticar Episkyros Posted by Hello


A cultura helénica foi a principal influência daquilo que podemos designar por civilização ocidental. Foi em solo grego que nasceram ciências, como a matemática e a filosofia, se desenvolveram artes como o teatro, e foi criado o mais importante evento desportivo da história da humanidade: os Jogos Olímpicos. A importância do desporto na vida dos gregos, nomeadamente dos atenienses, é perceptível em adágios como "menta sã em corpo são"; desta forma, não é de estranhar que também os gregos tenham desenvolvido jogos em que uma bola servisse de objecto central.

Embora o conhecimento que detemos do jogo conhecido como Episkyros seja reduzido, é aceite tratar-se este de um jogo remotamente relacionado com o futebol. Na realidade, as semelhanças do Episkyros com o Rugby são bastante maiores do que as que partilha com o futebol, como atesta o facto de se poder utilizar as mãos para jogar a bola. As parecenças com o futebol moderno centram-se mais nas dimensões do campo em que o jogo era disputado e no facto de cada equipa contar com 12 elementos. Ainda assim, o facto de requerer um certo domínio da bola com os pés coloca-o como um antepassado afastado do futebol dos nossos dias.

Curiosidade: a imagem repruduzida acima, que pode ser encontrada no Museu Nacional de Arqueologia de Atenas, aparece nos dias de hoje na Taça Henri Delaunay, a taça com que os campeões da europa de nações são presenteados a cada 4 anos.