Lugar Cativo

"A melhor defesa é o ataque" Hugo Meisl

Futebol do Mundo (II)

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A Escola de Artes do Danúbio


No triângulo formado por Viena, Budapeste e Praga criaram-se algumas das mais belas obras culturais da humanidade; literatura, música, poesia, todas devem à zona do Danúbio especial reverência pois de lá provieram alguns dos seus mestres principais. Embora a elite cultural e o futebol andem de costas voltadas grande parte do tempo, a verdade é que foi da boémia cultural do Danúbio que entre as décadas de 30 a 50 se escreveram e compuseram algumas das mais belas partituras da história do futebol.

Numa altura em que o estilo inglês era reverenciado pelo seu estatuo de patriarca do futebol, na época em que o WM dominava as concepções tácticas e a capacidade física ditava a lei, os Magos do Danúbio romperam com os cânones futebolísticas e encantaram o mundo com um novo estilo de futebol baseado na superior capacidade técnica dos seus executantes, na rápida troca de passes, nas triangulações desconcertantes e numa organização táctica sólida e exemplar. Um futebol onde todos atacavam e todos defendiam, onde o pressing ofensivo era referência e a polivalência dos jogadores um pré-requisito; um futebol esteticamente belo e eficaz, como se as sinfonias de Mozzart calçassem umas chuteiras e bailassem pelos campos de futebol europeus.




Aústria



Austria, 1932. © Votava Posted by Hello

Mas a história faz-se de nomes e nesta são muitos os que assumem o papel principal. O austríaco Hugo Meisl foi talvez o impulsionador principal do desabrochar da escola centro-europeia; influenciado pelo futebol britânico, sobretudo pelas ideias de Jimmy Hogan, Meisl compreendeu que aliando à morfologia atlética característica do futebol para lá da Mancha o perfume técnico dos intérpretes austríacos, estaria em condições de criar um novo estilo de futebol superior. Partindo desta base, associou-se a Hogan e em conjunto congeminaram uma formação austríaca que surpreendeu o mundo futebolístico dos inícios dos anos 30 ficando conhecida para a posteridade sobre a designação de Wunderteam, a “Equipa Maravilha”.

Entre 1931 e 1935 esta equipa fabulosa que contava com jogadores de elevado nível, entre os quais se destacava Matthias Sindelar, encantou o mundo com o seu futebol de passe curto, sistematizando o ataque em bloco, o predecessor do actual pressing ofensivo. Na caminhada para o Mundial de ‘34 na Itália, o Wunderteam esteve 14 jogos sem conhecer a derrota, dos quais 11 se cifraram em vitória dos austríacos. Na fase final atingiu brilhantemente a meia-final onde, desgastados pelo torneio e afectados por lesões, os austríacos caíram aos pés dos anfitriões e vencedores da prova.

Em 1938 deu-se o Anchluss, a anexação da Aústria pela Alemanha nazi, sendo a selecção da Ostmark (como o território austríaco passou a ser designado) impedida de participar no mundial de ’38 em nome da união da pátria nazi, que recrutou para as suas fileiras seis jogadores do Wunderteam austríaco. Mas a 3 de Abril desse mesmo ano, o Wunderteam defrontou a selecção germânica naquilo que era suposto ser uma demonstração de superioridade da raça ariana e da selecção alemã; guiada por Sindelar, a selecção austríaca deu um recital de bom futebol e venceu por 2-0 perante os olhos de 60.000 espectadores e sob os narizes dos comandantes das SS. Foi a última demonstração de poder do futebol austríaco que, depois da guerra e tendo sofrido influências do estilo mais físico alemã, não mais conseguiu criar uma equipa herdeira do Wunderteam de Meisl.



Hungria


Inglaterra - Hungria, 1953. ©Planeta do Futebol Posted by Hello

No pós-guerra, o foco do futebol centro-europeu moveu-se de Viena em direcção a Budapeste, capital da Hungria, de onde brotou aquela que muitos consideram a melhor equipa da história do futebol mundial: a Aranycsapat, a “Equipa de Ouro” húngara. Percebendo a importância do futebol como instrumento de propaganda política, o emergente governo comunista húngaro entregou a Guzstav Sebes, o vice-ministro dos desportos, o controlo da selecção magiar. Sabendo das dificuldades em criar um onze coeso devido ao pouco tempo que os jogadores da selecção passavam juntos, Sebes utilizou o modesto clube Kispest como laboratório para a sua selecção; passando a ser comandado pelo exército, o Kispest recebia os melhores jogadores do país nas suas fileiras em nome do interesse da pátria, formando uma equipa fabulosa, o mítico Kispest Honved, uma máquina de bom futebol que dominou o futebol húngaro na primeira metade da década de 50, período em que encantou o futebol mundial.

Aproveitando o trabalho de Janus Kalmar (escolhido por Sebes) no Honved, Gustav Sebes construiu uma selecção que conseguiu dois recordes ainda em vigor: maior número de jogos sem perder (32); e maior número de golos apontados numa fase final de um Campeonato do Mundo (27, no Suiça ’54). A primeira grande demonstração de força dos magiares deu-se nos Jogos Olímpicos de 1952, realizados em Helsínquia, onde conquistaram com brilhantismo a medalha de ouro. No entanto, acabou por ser um jogo amigável a criar o mito da imbatibilidade húngara: em 1953, no jogou que mudou o futebol, a Hungria foi a Wembley bater a altiva selecção inglesa por uns expressivos 6-3! Para além do brilhantismo técnico dos jogadores húngaros, a partida serviu para demonstrar a superioridade táctica da formação orientada por Sebes: o tradicional WM foi transformado pelos magiares pelo simples recuo do ponta-de-lança (Hidegkuti) para uma posição de “lançador” de jogo, abrindo espaços na defesa contrária que eram aproveitados pelas entradas dos alas e dos médios. No jogo da desforra em Budapeste, a Aranycsapat voltou a vencer, desta feita por 7-1!

O futebol baseado em passes curtos e nas capacidades técnicas dos seus executantes exibido pelos húngaros levou-os a uma caminhada triunfal da sua selecção até ao jogo decisivo do Mundial de ’54 realizado na Suiça. Terminou aí a série imbatível dos húngaros, batidos pela República Federal da Alemanha por 2-3, depois de terem vencido os germânicos por 8-3 na fase de grupos. Este foi o último grande momento do futebol húngaro e da sua magnífica selecção, que seria desmantelada pela deserção de alguns dos seus melhores jogadores em 1956 como consequência da invasão da Hungria por parte da União Soviética na tentativa de impedir uma sublevação dos húngaros face ao regime comunista instalado. Construída pela força política e pelas armas, a fabulosa selecção húngara veria o seu fim ser ditado pelas mesma forças.



Checoslováquia


Checoslováquia, 1976. ©Planeta do Futebol Posted by Hello

O 3º vértice do triângulo mágico do Danúbio situava-se em Praga, a poética capital da então Checoslováquia. Tal como sucedeu com as selecções austríaca e húngara, o futebol checo mesclou a força física com a superior capacidade técnica dos seus jogadores, num estilo de jogo baseado em passes curtos e dribles, uma herança das influências escocesas dos primórdios do futebol checoslovaco. O estilo checo revelou-se temível devido à forma como integrava num todo harmonioso a robustez física dos seus defesas com o perfume técnico exibido do meio campo para a frente; um futebol habilidoso, jogado com astúcia e agressividade que levou os checos ao segundo lugar no Campeonato do Mundo de ’34, onde perderam na final com a anfitriã Itália.

O futebol checo viveu nos 20 anos seguintes um ocaso, fruto das tensões resultantes da 2ª Guerra Mundial a partir da qual a Checoslováquia passou a estar sob a tutela soviética. Este período permitiu no que ao futebol habilidoso e esteticamente agradável da Escola do Danúbio, se juntasse o cientismo e ideais colectivistas da doutrina comunista; desta forma os checos apresentavam um futebol colectivamente muito forte, pincelado por individualidades de qualidade superior. Uma mistura explosiva que começou a dar frutos em 1962 no Chile, num Mundial em que mais uma vez os checos perderiam na final por 2-1 devido a erros dos seus guarda-redes (Planika em ‘34; Schroiff em ’62) depois de terem chegado à vantagem; desta feita o carrasco dos checos foi o Brasil, que conquistava o bicampeonato. Nesse torneio, os checos apresentaram um futebol astuto entregando o comando do jogo adversário, refugiando-se no seu reduto defensivo à espera de um erro que lhes permitisse recuperar a bola e partir mortiferamente para o contra-ataque.

A Checoslováquia acabaria por ser, das 3 nações que constituíam o Triângulo do Danúbio, a única a conquistar um título internacional ao mais alto nível com o triunfo no Europeu de ’76; um período já distante da época áurea do estilo centro-europeu. Comandada por Jezek, a Checoslováquia apresentou um futebol que aliava à técnica individual dos seus jogadores, o pragmatismo do futebol ao primeiro toque da escola soviética, o que a tornava uma equipa temível Na caminhada para o título, os checos deixaram pelo caminho as 3 grandes favoritas à conquista do troféu: a poderosa URSS; a finalista do Mundial anterior e grande favorita, a Holanda do “Futebol Total”; e, na final, derrotou a força germânica, campeã do mundo em título, na decisão através de grandes penalidades com um momento sublime de Panenka que, com um amorti divinal, deixou Sepp Meier espraiado no solo em desespero. A consagração de uma selecção que esteve 22 jogos sem conhecer a derrota.

Com a separação de checos e eslovacos, passou a ser a Rep. Checa a sucessora dos checoslovacos, continuando a demonstrar um futebol eminentemente técnico, mas com um sentido táctico e colectivo elevado. Em ’96, no Europeu realizado na Inglaterra, os checos surpreenderam ao atingirem a final onde seriam derrotados por um golo de ouro alemão. Os torneios seguintes forma amargos para os checos, que voltaram a deslumbrar no Euro ’04 realizado em terras lusas, do qual foram afastados nas meias-finais por um golo de prata grego.



Muito do que foi o poderio do futebol virtuoso da Escola do Danúbio, encontra-se sufocado sobre o desfalecimento do futebol húngaro e a “germanização” que alterou a morfologia do futebol austríaco. Hoje em dia, a República Checa, separada da irmã eslovaca, é a única herdeira de um estilo que em tempos foi o mais belo do mundo; é no futebol de Nedved, Baros e companhia que os genes de outros gigantes do futebol mundial continuam a encantar gerações de amantes do desporto-rei.
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7 Comentários:

Realmente, os checos (os unidos da ditaduras ou os separados da república) sempre conseguiram manter o nível elevado: para além destas, a equipa que reunia Kadlec e Chovanec, entre outros, ficou certamente na retina de toda a gente.

Mais uma vez, parabéns pela excelência do blog!

Por Blogger master kodro, at 1:03 da tarde  

Realmente muito interessante o seu blog. Passe no meu e diga o que achas. Saudações do Brasil

Por Blogger Cyres Inc., at 5:21 da tarde  

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Por Blogger Cyres Inc., at 5:22 da tarde  

Este comentário foi removido por um administrador do blogue.

Por Blogger Roberto Iza Valdes, at 1:45 da tarde  

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