Lugar Cativo

"A melhor defesa é o ataque" Hugo Meisl

Formação: uma aposta com futuro?

quarta-feira, março 16, 2005
Na jornada 27 da Premier League, o Arsenal recebeu e venceu o Crystal Palace por uns expressivos 5-1; um resultado que apenas demonstra a clara vocação ofensiva dos comandados de Ársene Wenger e a grande discrepância entre as duas equipas. Seria apenas mais um dado estatístico não fosse pelo facto de ser um jogo que entrará na história do futebol das terras de Sua Majestade: pela primeira vez uma equipa inglesa apresentou-se em jogo sem qualquer britânico na ficha de jogo. De facto os Gunners surgiram com 6 franceses, 3 espanhóis, 2 holandeses, 1 camaronês, 1 marfinense, 1 brasileiro e 1 suiço; a globalização do futebol no seu melhor.

A questão levantou polémica em Inglaterra e deu razão às mais recentes preocupações da UEFA, no que diz respeito à formação de jogadores. O organismo que superintende o futebol europeu tem vindo a realçar a sua preocupação com a falta de investimento dos clubes, sobretudo os clubes com maior capacidade económica, na formação de jovens atletas oriundos da sua [do clube] região de origem. Esta preocupação lança não só interrogações sobre o futuro da modalidade, na medida em que os incentivos para os jovens se dedicarem à carreira de futebolista esbarram na dificuldade em obter oportunidades para jogar na equipa principal do clube que os formou, como coloca em cheque o número de opções disponíveis para as selecções nacionais, que assim vêem o seu leque de escolhas reduzido.

A lei Bosman é vista como a principal causa da situação actual, já que se torna mais barato a importação de jogadores em final de contrato do que a aposta nos jogadores formados nas academias dos clubes. Estes últimos experienciam dificuldades em singrar nas formações principais sendo usualmente emprestados a clubes de divisões inferiores colocando em risco o seu desenvolvimento como jogadores de topo. A sobrelotação dos plantéis de grande parte dos clubes europeus é outra preocupação da UEFA, já que há uma tendência para os grandes clubes “armazenarem” jogadores que nunca chegam a ser utilizados, criando desta forma desequilíbrios competitivos quer ao nível das competições internacionais, quer sobretudo ao nível das competições domésticas.

Perante este cenário, o Comité Executivo decidiu avançar com uma proposta no passado dia 3 de Fevereiro, que prevê a obrigatoriedade dos clubes apresentarem nos seus plantéis um certo número de jogadores formados nos seus escalões jovens. Assim, está previsto que para 2006/07, os plantéis para as competições europeias tenham um limite de 25 jogadores (como aliás acontece) dos quais dois terão que ter sido formados pelo clube em causa e outros dois formados por um clube da mesma federação, não sendo tida em conta a nacionalidade dos jogadores. A quota de jogadores aumentará progressivamente para que na época 2008/09 se atinja os 4+4. O não cumprimento destas medidas acarretará uma sanção que passará pela diminuição do número de jogadores a poder ser inscrito nas competições europeias no valor em falta; ou seja, a uma equipa que apresente em 2008/09 apenas 2 jogadores formados no clube e outros dois formados num clube da mesma federação, apenas será permitido a inscrição de 21 jogadores (os 25 previstos no regulamento menos os 4 em falta).

Para clarificar a situação, a UEFA define um jogador formado pelo clube como todo aquele que tenha passado pelo menos 3 épocas no clube no período desenvolvimental compreendido entre os 15 e os 21 anos; um jogador formado na mesma federação é aquele que durante o mesmo espectro temporal tenha passado 3 épocas no clube ou num outro clube(s) que faça parte da mesma federação. Pegando no exemplo concreto do FC Porto, pode-se definir Hélder Postiga como um jogador formado pelo clube e Raul Meireles como um jogador formado por um clube pertencente à mesma federação.

A UEFA pretende que estas novas normas sejam também aplicadas às competições domésticas, apelando por isso a que todas as federações nacionais as adoptem. Com esta medida o organismo europeu do futebol pretende fomentar o equilíbrio nas competições nacionais; equilíbrio que tem vindo a diminuir desde que a Lei Bosman entrou em vigor em 1995.

A vontade do Comité Executivo na UEFA pode no entanto esbarrar na intransigência dos maiores clubes europeus em aceitar esta nova legislação, sendo que se alguns se encontram a favor, outros há que não se encontram muito predispostos a abandonar o status quo do momento, até por que dele beneficiam. Aliada a esta possível intransigência dos clubes, surge também a dificuldade de conciliar a proposta com as leis em vigor na União Europeia no que à livre circulação de pessoas diz respeito; embora seja explícito que a nacionalidade dos atletas não é um factor tido em conta na contabilização dos atletas formados no clube e federação, existem dúvidas que a proposta não colida com as normas laborais vigentes na UE.

Tendo isto em conta, procuro deixar aqui a minha opinião a respeito da proposta da UEFA, tendo em conta os seus dois pontos principais: 1. Limite de 25 jogadores no plantel; 2. Obrigação de ter no plantel um determinado número de jogadores formado no clube e na mesma federação.

1. Limite de 25 jogadores no plantel

Limitar o número de jogadores por plantel trata-se de uma proposta positiva porque impedirá o “armazenamento” de jogadores de qualidade que nunca chegam a ser utilizados por parte dos clubes com maior poder económica; desta forma, os clubes médios terão à sua disposição mais opções que poderão corresponder a uma melhoria qualitativa do seu plantel, o que produzirá uma maior competição entre os clubes, sobretudo a nível interno. Outro aspecto positivo desta medida está relacionado com o funcionamento internos dos próprios clubes, nomeadamente a sua vertente económica: cada vez se torna mais evidente não haver capacidade para os clubes manterem plantéis numerosos do ponto de vista financeiro; a redução do número de jogadores no plantel permitirá reduzir os gastos dos clubes, trata-se de uma medida profiláctica que deveria partir dos próprios clubes e não dos organismos superiores. Resta saber se ao reduzir o número de jogadores pertencentes a um plantel, não se estará a criar mais uma barreira para o apostar em jogadores jovens.

2. Obrigação de ter no plantel um determinado número de jogadores formado no clube e na mesma federação.

Esta é a medida central do processo lançado pelo organismo que superintende o futebol europeu. Com o estabelecimento desta regra a UEFA procura forçar os clubes a apostar na “prata da casa”, levando a um incremento em termos do investimento na formação; esta é uma medida que providencia receitas a médio/longo prazo para os clubes advindas da venda dos jogadores provenientes dos escalões de formação do clube, uma estratégia em que o Ajax se notabilizou ao longo dos tempos. Obrigando os clubes a terem nos seus plantéis jogadores que tenham sido formados por clubes pertencentes à mesma federação irá levar a um maior aproveitamento no mercado interno, o que permitirá que clubes com menores capacidades financeiras obtenham uma fonte de rendimento extra; desta forma, a UEFA criará um modelo onde os clubes de um país serviram de sustento uns para os outros o que poderá, dependendo da qualidade média dos jogadores do país, levar a uma melhoria dos clubes em geral ou resultar exactamente no oposto.
Aquela que na minha opinião resulta na maior falha da proposta, prende-se com a falta de esclarecimento a respeito da faixa etária abrangida nas considerações da UEFA. Sendo claro que se entende como etapa de formação o período compreendido entre os 15 e os 21 anos, não me parece que considerar jogadores com uma idade superior a 28 anos como incluíveis na categoria de jogador formado no clube ou na mesma federação resulte num aumento na aposta de jogadores jovens; seria na minha opinião pertinente considerar os 25 anos como a idade máxima com que um jogador poderia ser contabilizado para estas categorias

Em termos gerais, sendo eu defensor da aposta em jogadores jovens sobretudo quando formados pelo próprio clube, considero ser esta uma proposta não só interessante como fundamental para a própria sobrevivência do futebol como grande espectáculo aglomerador de multidões. No entanto, surgem-me reticência quanto à receptividade por parte dos grandes clubes, sobretudo os das Liga Italiana e Espanhola, em aceitar as exigências da UEFA. Olhando para o panorama nacional, esta é uma medida que poderá sem grandes dúvidas favorecer o futebol português devido à qualidade média do jogador português, sendo no entanto necessário uma grande melhoria das condições em termos de formação da grande maioria dos clubes portugueses. Convém não esquecer ainda o fenómeno “convenção luso-brasileira” que serve de expediente para a importação massiva de jogadores oriundos das terras de Vera Cruz; e que poderá servir como mais entrave político a todo o processo que a UEFA pretende levar a cabo, neste caso afectando exclusivamente Portugal.

Rinus Michels: o homem que inventou o futebol moderno

sexta-feira, março 04, 2005

Rinus Michels 1928-2005 Posted by Hello

A frase acima seria a que mais justamente poderia descrever de uma forma simplista o contributo que o “General de Ferro”, como era conhecido, deu ao futebol mundial; mas de tão simplista que é deixa muito por dizer, sendo que o único documento que alguma vez poderá fazer justiça ao técnico holandês são os vídeos das caminhadas da Laranja Mecânica no Mundial de 74’ e no Europeu de 88’.

Como jogador, Michels foi um excelente avançado que actuou somente no Ajax, pelo qual se estreou a 9 de Junho de 1946 frente ao ADO Den Haag, numa partida que os “lanceiros” venceram por 8-3, sendo 5 desses golos da autoria de Michels. Durante os 14 anos que passou como jogador no De Meer (abandonou a carreira em 1958), Rinus Michels actuou em 257 partidas para Liga Holandesa, nas quais marcou 120 golos.

Em 1965 Rinus Michels tornou-se no primeiro treinador holandês a orientar a equipa principal do Ajax com a tarefa de salvar o clube o clube da descida de divisão, objectivo que cumpriu. Com Michels no comando, e com um leque de jogadores onde despontava Cruyff, o Ajax viveu a sua época mais áurea conquistando os títulos holandeses de 66, 67, 68 e 70, ao qual juntou o triunfo na Taça dos Campeões Europeus em 71 frente ao Panathinaikos. Em 71 Michels rumou à Catalunha com a função de guiar ao título o Barcelona, o que viria a conseguir em 1974 contando na equipa com Johan Cruyff.

Foi precisamente em 74 que a Real Federação Holandesa de Futebol chamou Rinus Michels aos comandos da selecção laranja, que apenas tinha obtido a qualificação para o Mundial desse ano à custa de um golo mal anulado à sua vizinha Bélgica no jogo de qualificação. Com Michels no banco a Laranja Mecânica caminhou triunfalmente até à final onde caiu perante a selecção anfitriã da República Federal da Alemanha onde pontificava o Kaiser Franz Beckenbauer. Michels voltou ao local do crime, o Estádio Olímpico de Munique, em 1988 onde veria a sua Holanda sagrar-se campeã europeia sob a batuta de jogadores como Ronald Koeman, Frank Rijkaard, Ruud Gullit e o Bailarino Voador, Marco Van Basten.

Michels abandonou a carreira de treinador em 1992 após a eliminação da Holanda nas grandes penalidades frente à Dinamarca no Europeu da Suécia. Michels manteve-se ligado ao futebol nomeadamente como membro, e mais tarde vice-presidente, do Comité para o Desenvolvimento Técnico da UEFA. Em 1999 a FIFA elegeu Rinus Michels como o Treinador do Século.

Mais do que os títulos, a carreira de Rinus Michels ficou marcado pela qualidade do futebol apresentado pelas suas equipas: o chamado Futebol Total, o futebol levada ao extremo da beleza poética. O onze estruturava-se num 4-3-3 dinâmico onde todos atacavam e todos defendiam, não havia posições fixas já que todos os jogadores circulavam com e sem bola num carrossel mágico que enleava os adversários, hipnotizados pela qualidade técnica e táctica dos jogadores holandeses. A circulação era a chave do sucesso com constantes variações de flanco e passes para trás quando necessário no intuito de criar pontos de ruptura na defesa contrária. Já em 74 a selecção holandesa praticava a hoje em dia tão em voga pressão alta, procurando asfixiar o adversário no seu próprio meio-campo defensivo e obter rapidamente a tão ansiada posse de bola.

Mais do que um estilo de jogo, o Futebol Total de Rinus Michels é uma ideologia que se propagou pelo mundo do futebol e que tem nos seus pupilos de 88 os seus mais directos seguidores actualmente, e da qual Johan Cruyff foi o protótipo tanto como jogador como mais tarde como treinador. A verdade é que Michels, tal como Herbert Chapman ou Gustav Sebes fizeram no seu tempo, marcou uma era do desporto que uma vez disse ser “uma guerra”.

Notas clássicas

quarta-feira, março 02, 2005
Do jogo FC Porto - SL Benfica de passada segunda-feira, ficaram-me dois apontamentos mentais que me intrigam, embora não tenha directamente a ver com o desempenho das duas equipas:

1. Cada vez que um jogador cai por terra magoado, o jogo pára, entram médicos e massagistas, o jogador é assistido enquanto os maqueiros esperam para o transportar para fora das quatro-linhas, enquanto os espectadores desesperam. Nisto, o próprio jogador levanta-se e sai de campo pelo próprio pé, com ou sem apoio de outrem; os maqueiros regressam à base, e os espectadores continuam a desesperar. Não era mais prático os jogadores serem transportados para fora de campo e só aí serem assistidos? É que desta forma perdia-se menos tempo com o jogo interrompido, as pseudo-lesões que por aí abundam terminavam já que os jogadores deixavam de ter algo a ganhar com isso, e os maqueiros faziam o trabalho para o qual estão indigitados. Claro que isto só em casos de lesões em que fosse certo não existir qualquer perigo para o transporte do jogador sem apoio de um médico. Acredito que o futebol ficava a ganhar!

2. Como não podia deixar de ser, no decorrer do jogo houve alguns problemas com as claques das duas equipas; não em termos de confronto físico entra ambas, mas no accionar de engenhos proibidos em recintos desportivos, os denominados petardos. Claro está, que a PSP não perdeu tempo para "molhar a sopa", chegando mesmoa deter (pelo menos) um adepto benfiquista que lançou um petardo. Pergunta retórica: mas afinal os tipos são revistados ou não? É que se não são, têm um tratamento priveligiado em relação aos restantes espectadores; se o são, o processo é claramente mal conduzido.