Lugar Cativo

"A melhor defesa é o ataque" Hugo Meisl

É o sistema, estúpido!

segunda-feira, março 29, 2004
A cada jornada da Superliga aparece procurando abrir os olho da opinião pública para a perseguição que o seu clube é alvo, qual D. Quixote em busca dos seus moinhos! Poderia ser uma personagem de Agatha Christie ou de Sir Arthur Connan Doyle, mas que se saiba o futebol nunca foi motivo de interesse para estes.
Mais uma vez, Dias da Cunha veio a público pedir que se investigue a arbitragem tecendo teorias da conspiração enigmáticas, um pouco a tender para a esquizofrenia ("Eu sei que vocês sabem que eu sei..."). Mas desta vez à que dar mérito ao homem: é preciso investigar a que propósito é que um fiscal de linha não anula um lance no qual um jogador comete falta sobre um adversário e, no seguimento, marca o golo que decide o desafio (a poucos minutos do fim) beneficiando de uma posição irregular.

P.S. Mais a sério, não há paciência para Dias da Cunha e o seu complexo persecutório. É verdade que o Sporting já foi prejudicado mas, como todos os grandes, acaba sempre por beneficiar do empurrãozinho de ocasião quando as coisas apertam.

Com honra mas sem glória

sexta-feira, março 26, 2004
Desde já esclereço que, tal como aconteceu com o jogo da 1ª mão, não vi o jogo dos oitavos-de-final da Taça Uefa entre Inter e Benfica e que culminou no afastamento da equipa encarnada da prova (derrota 4-3). Assim a (curta) análise que aqui farei terá por base apenas o resultado e os lances dos golos que vi à posterior no resumo televisivo.
Como não vi os lances não posso opinar sobre o lance polémico de Toldo com Sokota (que ditaria a expulsão do guardião italiano e um penalty a favor dos benfiquistas), e as "agressões" (como não vi, não sei se o foram) de Vieri.
O facto é que estes episódios não justificam a eliminação de uma equipa que, segundo os ecos da imprensa, foi superior em termos gerais. Aquilo que explica esta eliminação do Benfica é a falta de eficácia no jogo em casa e alguma permissividade defensiva no segundo. De qualquer forma, a campanha deste ano do clube nas provas europeias dignificou a instituição e, embora o objectivo principal (acesso à Liga dos Campeões) tenha sido falhado, superou algumas expectativas; não sendo propriamente fantástica a imagem do Benfica saiu reforçada, sobretudo nestes dois últimos jogos nos quais foi capaz de se bater com um clube que em termos económico é mais forte que todo o futebol português em conjunto.
Marcar 3 golos a uma equipa italiana, ainda por cima em casa desta, é um feito notável, mas é incompreensível como mesmo assim o Benfica foi afastado sofrendo 4. Faltou-lhe a escola italiana de bem defender e contra-atacar de forma mortífera. O primeiro golo dos italianos apenas confirmou que defensivamente o Benfica é não só uma equipa frágil como imatura; sem tirar o mérito óbvio a Karagounis que fez um jogada fenomenal, esperava-se um outro comportamento dos defesas encarnados (Moreira incluído) que cairam no erro infantil de entrar "de lanço" à bola o que, quando a bola está em posse de um jogador tecnicamente bom e embalado, é a morte do artista.
O 2º golo ditou a eliminatória, pois o Inter a vencer passou a actuar em contra-ataque e teve como corolário lógico mais 2 golos fruto da forma como os italianos tiraram partido da superioridade numérica. Mérito para os jogadores do Benfica que mesmo com 2 golos de desvantagem acreditaram ser possível e partiram em busca do prejuízo.

Porto vintage

quarta-feira, março 24, 2004
Ontem foi um Porto sóbrio que derrotou o bi-campeão francês dando um passo importante para marcar presença nas meias-finais da Champions League. Sem realizar uma exibição de gala os dragões fizeram o suficiente para garantir uma vantagem que, embora não decisiva, deixa os azuis-e-brancos em posição excelente para voltar a fazer história.
Dominando o jogo desde início, raras foram as oportunidades concedidas aos gauleses mas as que estes dispuseram foram suficientes para demonstrar que o Ol. Lyonnays é de facto uma equipa de grande nível e que tem no seu plantel jogadores que aliam uma enorme capacidade técnica a uma velocidade de execução de ponta, bem ao jeito da escola francesa.
A cada jogo que passa a equipa de Mourinho mostra que é de facto uma das melhores formações da Europa, sendo capaz de competir com os mais ricos de igual para igual sendo legítimo o sonho de marcar presença em Gelsenkirchen e levantar o mais ambicionado caneco do futebol a nível clubístico. Os dragões mostram ser capazes de uma leitura de jogo impressionante sabendo quando acelerar o jogo e quais os momentos em que é mais proveitoso abrandar o ritmo e "irritar" o adversário com a fluidez com que a bola passa pelos jogadores azuis-e-brancos, sobretudo no meio-campo onde Mourinho dispõem jogadores de qualidade técnica e cultura táctica de nível sublime.
Em Lyon não estará à espera do FC Porto uma equipa disposta a abdicar do sonho de estar nas meias-finais pelo que os dragões terão que fazer um jogo realista tapando os caminhos para a baliza de Baía, mas sem descurar a ofensiva. Pela forma de actuar desta equipa não é de esperar que vá a França defender o resultado procurando o golo fora que garantirá seguramente a passagem e os importantes milhões.

À procura do tempo perdido

A falta de actualização deste blog tem-se devido à falta de tempo que tenho experienciado nas últimas semanas e que, temo, se irá manter nas próximas. Desde já ficam explicados atrasos e lacunas que poderão surgir nos próximos tempos.
Ficaram assim por comentar as meias-finais da Taça de Portugal, que nos irão propiciar um FC Porto - Benfica no último jogo da temporada interna, a última jornada da Superliga da qual se destaca a humilhante goleada com que Sporting foi brindado em Vila do Conde e o consequente aproximar do Benfica ao 2º lugar do campeonato, e a polémica relativa ao palco onde a final da Taça se deverá realizar.
Algumas notas rápidas:

1 - Vitória tranquila do Porto em Braga, não tendo que puxar dos galões perante uns arsenalistas esforçados mas que não conseguiram fazer tremer o dragão;

2 - Benfica volta a ter hipótese de conquistar um troféu o que em ano de centenário e em tempo de vacas magras não é nada mau;

3 - Sporting disse adeus ao título e permitiu que os rivais da 2ª Circular (re)lançassem a luta pelo acesso à Champions League;

4 - Grande Rio Ave que do "nada" vai fazendo um época de grande nível podendo aspirar a voos mais altos (sobre o Velho Continente), mérito total de Carlos Brito;

5 - É triste que o saudosismo que impera sobre certas personagens do futebol português teime em sobrepôr-se à lógica mantendo-se o Estádio do Jamor como palco da final da Taça quando é evidente que já não reúne condições mínimas para um jogo que se quer de festa.

Aborrecido

domingo, março 14, 2004
O jogo de sábado no Dragão foi, mais uma vez, uma péssima propaganda para o futebol. Embora não tenha atingido o nível deprimente dos últimos jogos entre dragões e panteras, voltou-se a assistir a um jogo pobre em que apenas uma equipa procurou ganhar enquanto a outra foi adiando aquilo que o seu próprio treinador havia classificado como inevitável: a derrota que se segue à adopção de uma postura simplesmente defensiva quando se defronta o FC Porto. Mantendo-se fiel ao seu estilo o Boavista defendeu muito, perdeu muito tempo e quando quis jogar não havia tempo nem soluções.
Apenas quando a derrota pareceu uma certeza é que a equipa de Jaime Pacheco procurou jogar futebol; não que antes não tivesse atacado, mas esses casos foram apenas acasos do jogo. Pacheco apresentou uma linha de 4 defesas na qual os laterais não tinham autorização para abandonar o reduto defensivo, 2 médios-defensivos, André e Raul Meireles, dos quais apenas o segundo se envolvia esporadicamente em acções ofensivas e 1 médio criativo (R. Sousa) a quem competia pautar o jogo da equipa e marcar as bolas paradas. Os dois médios-alas (Martelinho e Ali) tinham como função exclusiva segurar os laterais dos azuis-e-brancos funcionando como médios-defensivos, e ao solitário Cafu coube essencialmente a função de correr atrás das bolas bombeadas para as imediações da área portista e defender atrás da linha da bola (como todos os seus colegas) quando o FC Porto atacava. Ao seu estilo, Pacheco apostou em muita pressão e marcações individuais cerradas de forma a que todos os jogadores dos dragões tinham um adversário directo que não os largava por motivo algum.
Na sua lógica da rotatividade, Mourinho fez a equipa regressar ao 4-3-3 interno com S. Conceição e Maciel nas alas e surpreendeu tudo e todos ao entregar a titularidade a R. Fernandes dando-lhe o papel de organizador de jogo, deixando Deco, C. Alberto e Alenitchev no banco. Daqui resultou uma primeira parte monótona com poucas situações de golo (3/4 para o Porto e 2 para o Boavista), péssimo futebol e demasiadas perdas de tempo por parte dos boavisteiros. À falta de ambição ofensiva dos axadrezados, os dragões respondiam com um futebol atabalhoado com muitas perdas de bola e passes longos, destacando-se apenas Maniche a pautar o jogo, McCarthy a lutar com os defesas boavisteiros e P. Ferreira, que fez o corredor direito sozinho tal a nulidade da exibição de S. Conceição.
Ao intervalo Mourinho proucurou corrigir os erros de casting tirando R. Fernandes e Conceição e fazendo entrar para o lugar destes Deco e C. Alberto. O Porto encostou definitivamente os boavisteiros à sua área graças à dinâmica que Deco emprestou ao jogo (apesar de longe do brilhantismo da época anterior é um jogador notável que trabalha incansavelmente em prol da equipa) e à agressividade dos dribles de C. Alberto, que embora muitas vezes inconsequentes colocam em sobressalto a defesa contrária. Mais tarde Mourinho trocou Maciel por Jankauskas apostando num tipo de futebol mais directo, com o lituano a ter a dupla tarefa de ganhar bolas de cabeça e libertas McCarthy dos defesas-centrais axadrezados. Durante a segunda metade da partida o Boavista acentuou a sua postura defensiva, procurando resistir ao cerco dos avançados portistas.
Finalmente ao minuto 71, numa jogada ensaiada (que Mourinho creditou a autoria para Camacho) McCarthy fez o esperado golo e toda a estratégia boavisteira caiu por terra. A partir daqui o Boavista passou a tentar arranjar jogadas de ataque, que mais não eram do que a procura de livres directos perto da área para R. Sousa e L. Claúdio que entretanto substituíra Ali. Mas a verdade é que esta Boavista não está treinado para atacar e os seus jogadores acabaram a partida a lamentar os segundos que ridiculamente tinham perdido nas longas demoras de reposição da bola em jogo. Os últimos 15 minutos foram aqueles em que se praticou melhor futebol com os azuis-e-brancos a estarem mais perto de aumentar a vantagem do que de sofrerem o empate.
Se o Boavista ainda tem esperança de alcançar um lugar que dê acesso às competições europeia na próxima época, é necessário que Pacheco ponha a sua equipa a jogar futebol e não limitar-se a negar o jogo da equipa oponente. Qualidade não falta no plantel axadrezado, é mais uma questão de mentalidade.

Regresso a casa

sábado, março 13, 2004
O derby da Invicta de hoje à noite é marcado por 2 regressos e uma estreia: o regresso dos Dragões a casa e à competição interna depois da brilhante eliminatória frente ao Manchester Utd., e o de Jaime Pacheco ao campeonato nacional e ao "seu" Boavista; aliados à estreia do Estádio do Dragão como palco principal de um dos jogos mais escaldantes do nosso futebol.
A dúvida em relação aos dragões está relacionada com a forma de encarar este jogo por parte dos pupilos de José Mourinho, quando as atenções dos últimos dias têm estado direccionadas para a Liga dos Campeões e para as hipóteses do FC Porto nessa competição. Até que ponto os jogos com o Lyon não estarão já na mente dos azuis-e-brancos? Tendo em conta aquilo que tem sido a postura desta equipa nos últimos tempos, não me parece provável que os jogadores encarem esta partida de forma leviana até porque se trata de um jogo entre rivais que, embora as direcções dos dois clubes tenham sanado divergências, se odeiam.
O regresso de Jaime Pacheco ao banco dos axadrezados não podia ter-se dado em pior altura: frente a um Boavista em crise de resultados estará uma equipa em estado de graça. A Pacheco não se pode pedir resultados imediatos, mas o técnico boavisteiro também sabe que se conseguir bater o pé aos dragões não só terá conseguido algo que até agora apenas Milan e R. Madrid obtiveram, como arrecadará uma importante carga motivacional positiva para o resto do campeonato e para a procura de um lugar que dê acesso à Europa.
A Jaime Pacheco caberá ainda inverter a tendência estritamente defensiva com que o seu antecessor cunhou a equipa boavisteira. Durante o período em que Sanchez esteve à frente da equipa não se pode falar de insucesso do ponto de vista desportivo, já que perante as condicionantes que se colocaram ao boliviano os objectivos estavam a ser minimamente cumpridos; mas atendendo à qualidade do plantel do Boavista e ao futebol que este apresentava tornou-se forçosa a sua dispensa, ainda para mais tendo em conta a espiral descendente que o clube apresentava com Sanchez a procurar contrariar os maus resultados com posturas ainda mais defensivas.
O Estádio do Dragão estará cheio (ou quase) de adeptos portistas que terão a ocasião de saudar a equipa após o jogo em Old Trafford. O público afecto ao FC Porto tem mostrado um apoio incondicional aos jogadores criando um ambiente espectacular que hoje será ainda mais infernal devido à rivalidade com os vizinhos do Bessa. Espera-se que o jogo esteja à altura do palco e que os recentes embates entre as duas equipas não sejam mais do que uma má recordação no livro dos piores jogos de sempre.

Champions League: Quartos-de-final

sexta-feira, março 12, 2004
Caiu em sorte ao FC Porto o Ol. Lyonnais nos quartos-de-final da Champions League. Não sendo o adversário teoricamente mais complicado, os campeões gauleses estão longe de ser "favas contadas" no caminho que os dragões terão que percorrer para chegar ao destino mais ambicionado: o Arena AufSchalke em Gelsenkirchen.
A equipa orientada por Paul Le Guen vale mais pelo seu conjunto do que pelas individualidades que o constituem, embora tenha no seu plantel jogadores de grande qualidade, um pouco ao estilo do que se passa nos azuis-e-brancos.
Os destaques vão para o central Edmílson internacional pelo Brasil (pelo qual se sagrou campeão do mundo em 2002, actuando em todos os jogos do escrete); o trinco ganês Essien, os médios-centro (de pendor ofensivo) Juninho Pernambucano e Eric Carriére (todos internacionais pelo seu país); o ala internacional francês Vikash Dhorasoo; e os jovens avançados gauleses Sidney Gouvou e Péguy Luyindula a quem se alia o experiente internacional brasileiro Giovane Élber.
A primeira mão será disputada no Estádio do Dragão no dia 23 de Março, estando o segundo jogo marcado para o dia 7 de Abril no Stade de Gerland.

Restantes jogos:

dia 23: AC Milan - Dep. Corunha (2ª mão a disputar no dia 7 de Abril)

dia 24: R. Madrid - AS Mónaco (2ª mão a disputar no dia 6 de Abril)
Arsenal - Chelsea

Decisão adiada

Embora não tenha visto o jogo e baseando-me em resumos televisivos e relatos de outrem, parece-me que o Benfica desperdiçou uma oportunidade de ouro para fazer pender a eliminatória para o seu lado, talvez até de uma forma definitiva.
A fraca eficácia ofensiva dos encarnados já vem do início da época e ainda recentemente pode ser constatada no jogo da 1ª mão contra o Rosenborg. A diferença é que desta vez os jogadores orientados por Camacho não vão a Trondheim defrontar uma equipa que não compete há alguns meses; ao Benfica está reservada uma visita a um dos míticos estádios da Europa do futebol, casa de uma equipa que, embora em mau momento de forma, tem um grande potencial e tem a seu favor a matreirice e o cinismo da escola transalpina. Marcar um golo é imperativo, mas não sofrer um vai ser uma tarefa hercúlea (sobretudo tendo em conta as carências da defesa encarnada).
O Inter demonstrou ontem que tem uma defensiva difícil de bater e que mesmo que esta falhe ainda resta Toldo para atemorizar os avançados adversários. Se o Benfica sofrer primeiro a eliminação é quase garantida. Os da casa têm nesta competição uma última chance de conseguir algo de significativo num a época que se adivinha de desilusão (mais uma) tendo em conta os investimentos feitos e os resultados obtidos.
Do Benfica espera-se uma exibição de raça e de querer, sem esquecer a concentração e o realismo que devem estar sempre presentes no espírito dos jogadores encarnados. E já agora, a estrelinha de Moreira que tanto brilhou na Noruega.

O SUPER-DRAGÃO

quinta-feira, março 11, 2004
Aquilo que o FC Porto fez nos quartos-de-final da Liga dos Campeões é algo de admirável e para mais tarde recordar. Da mesma forma que se recorda o calcanhar de Madjer em Viena ou o golo de raça de Derlei em Sevilha, o golo pleno de oportunidade de Costinha vai preencher as memórias de todos os portistas nos próximos anos.
O motivo principal para recordar este feito não é o mesmo que o dos anteriores; mais do que recordar a vitória na eliminatória aquilo que ficará para a História será o acabar de um mito: de que nós portugueses, remetidos para um canto pela presunção dos outros e pela nossa inépcia, somos capazes de bater o pé aos mais ricos desta Europa. Que por mais que sejamos olhados com desprezo e sobranceria pelos "sirs" da aristocracia do Velho Continente, somos capazes de feitos notáveis em condições inferiores.
Mourinho, odiado por grande parte do país (aquele cujo principal clube é o Anti-Porto), elevou o nome da instituição que defende e consequentemente o do país a patamares não esperados. Num país de ingratos e de invejosos, José Mourinho nunca verá o seu valor realmente reconhecido, porque o rancor que lhe é devotado preferirá sempre deturpar o que faz e o que diz.
A espera por D. Sebastião acabou; finalmente Portugal tem alguém que não se amedronta perante as adversidades e que não se curva perante o poder dos outros. Tomara que assim fossem todos aqueles que têm nas suas mãos os destinos lusitanos.

Renascer

Depois de mais de 3 meses de ausência ora por afazeres, ora por preguiça e mesmo por desinspiração resolvi voltar a escrever nestas páginas esperando que este ciclo seja mais longo que o anterior.